Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
retalhoscg@hotmail.com

QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?

Texto originalmente publicado no portal Pagina1PB

     O meu primeiro endereço foi Rua Desembargador Trindade, número 216, Centro, Campina Grande. Nasci, cresci e fui feliz ali por exatos 28 anos. Os três quarteirões entre as Ruas Severino Cruz e João da Mata (beira do Açude Velho e início do setor comercial da cidade) faziam parte do raio de abrangência demarcado por minha mãe para meu ir e vir quando criança. O detalhe de até onde podia “bater perna” perambulando mundo afora, registro para mostrar que sou do lugar e tenho intimidade com a área.

       A verticalização naquele setor teve início no final da década de 80 com a edificação de um condômino residencial. O “Porto Belo”, na esquina das Ruas Álvaro Gaudêncio com Cel. Salvino Figueiredo. Edificado pela Construtora Belfran de propriedade do Dr. Austro França. Na época, além da óbvia falta de opção, existia em Campina desconfiança das famílias em mudar para o tal do apartamento. A violência era só de ouvir falar e o privilégio de morar em casa prevalecia ante a novidade do regime coletivo de morada.

       Bom, vamos de volta para o presente…

       Um passeio hoje naqueles quarteirões é de rasgar o coração. Só na rua que morei já não existem em pé as casas de Jaime Barbosa, Chico Maria, Rildo Fernandes, Doquinha  Cabral, Tota Barreto, Roberto Pinto, João Pequeno, Nô Gomes, Sr. Leite do Banco do Brasil, a Escola Regina Coeli, Sr. Miranda, Luís Ribeiro, Zé Carlos do Café São Brás, Evaldo Cruz, Ribeirinho, Tico Lira… Na Rua Severino Cruz, entre outras foi pro chão a casa de Walter Britto (depois ali morou Dadá Targino), o Aliança Club 31. Na Rua Álvaro Gaudêncio caiu a mansão construída por Roberto Pereira (que também pertenceu a Dr. Emílio Pires), a de Wellington Barreto, a de Geraldo Dias, a de Buega Gadelha, a de Dr. Gióia. Na Rua José Bonifácio não existe mais a casa que morou Juracy Palhano. Na Rua João Tavares derrubaram a casa de Pedro Ivo, a de Têca de Jair, e o hospital infantil SAMIC. Na João da Mata já não está mais lá a casa de Álvaro Gaudêncio Filho, como algumas outras que não recordo a propriedade, também já não estão.

       Não foi um tufão que varreu tudo. Foi a metamorfose no conceito de morar. Todas as casas dos vizinhos acima citados deram lugar para edificações com vários pavimentos.  As pessoas simplesmente resolveram aderir entre outros itens, à praticidade e segurança dos condomínios. Claro que essa tendência impulsionou o comércio das áreas, os empreendimentos imobiliários multiplicaram e a verticalização tornou-se realidade, produzindo inclusive efeito de imponência e beleza paisagística.

       Mudando o teor nostálgico da prosa vou direto para o X da questão:

       Esta citada parte da Cidade está preparada para receber esse mega povoamento?

      Fiz uma continha baseado no espaço que antes foi a mansão de Zé Carlos da Silva Jr. para fundamentar esta minha curiosa apreensão.

      Ali, estão duas torres de 23 e 25 pavimentos (se houver alguma imprecisão nos dados, desconsiderar por minha inconveniente posição em pé na calçada quando da contagem dos andares. Com certeza se faltou ou sobrou, é irrelevante e sem qualquer prejuízo para o resultado do que está aqui sendo apresentado). Uma com 3 apartamentos por andar, outra com 4. São 169 novas residências onde antes existia apenas 1. Um carteiro entrega mais correspondências nesses dois prédios do que antes entregava na rua toda. Considerando que cada apartamento tem direito a 2 vagas na garagem, prevejo mais de 300 automóveis a desafiar a tal Mobilidade Urbana no mesmo lugar que no máximo 6 carros estacionavam. Se a média em cada casa for de 4 moradores, serão  perto de 700 novos residentes no mesmo espaço que antes numa projeção superestimada viviam cerca de 10 pessoas.  Cada unidade com no mínimo 3 banheiros funcionando com vasos, pias, mangueirinhas e chuveiros. Mais as torneiras do lavabo, cozinha e área de serviço.

       Pergunta deste leigo: o velho sistema de esgoto e galeria de águas pluviais suportarão com relativa funcionalidade essa demanda?  Importante lembrar que estou falando apenas de 2 entre os mais de 20 edifícios concluídos, iniciados, em fase final ou projetados para o setor. Sentiram o drama literal da pressão?

       Diz a lenda que Mao Tse Tung teria decidido ameaçar o mundo dando ordem para que todo cidadão Chinês subisse e saltasse ao mesmo tempo de uma cadeira e que esse ato simultâneo  seria suficiente para fazer tremer o planeta. Baseado nessa lendária “doidiça” oriental, já imaginaram se todos os atuais e futuros moradores dos quarteirões da velha “Palestra” resolvessem apertar o botão da descarga no mesmo instante?  … Ia ser pra todo lado!

       Excluindo agora a tirada cômica da descarga sincronizada, registro nesta crônica a apreensão com o nosso longevo sistema de esgotamento sanitário. Os buracos e remendos feitos nas vias, pela companhia de água e esgoto, sinalizam uma fadiga na tubulação. Com a palavra os que devem planejar a cidade hoje observando as possibilidades do amanhã.

       – Finalizo agora lembrando um espaço público urbano que também foi modificado no quarteirão que morei. A Praça do Sesquicentenário da Independência. Seus mastros e bandeiras foram trocados por estátuas em tamanho natural de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Obra belíssima, toda em bronze do artista paraibano, membro da Academia Brasileira de Belas Artes, Joás Pereira dos Santos, que produziu um cenário temático/interativo onde pessoas posam para fotos, integradas ao ambiente criado.

       Sim, ia esquecendo, o número 216 da Rua Desembargador Trindade, como se tivesse sido tombado pelo instituto da saudade, surpreendentemente ainda é o da mesma casa construída por meu velho e querido pai. Talvez esperando que um dia eu tenha grana para comprá-la de volta.

           Vamos em frente!

Rua Des. Trindade (parte) - (c) Google

7 comentários

  1. VALDEIR MORAIS on 29 de agosto de 2017 11:24

    GRANDE GUSTAVO RIBEIRO...!!!

    NÃO TER SAUDADE DE NADA, É NÃO TER NADA NA VIDA!!!

     
  2. Gustavo on 29 de agosto de 2017 18:52

    Alguém falou que "Saudade é sentir que existe o que não existe mais..."
    Hoje, passos de outras pessoas são dados no lugar onde perambulei. Ciclos da vida.
    Obg pelo registro. Abraços

     
  3. Gustavo on 29 de agosto de 2017 18:53

    Alguém falou que "Saudade é sentir que existe o que não existe mais..."
    Hoje, passos de outras pessoas são dados no lugar onde perambulei. Ciclos da vida.
    Obg pelo registro. Abraços

     
  4. Valfrêdo Farias on 29 de agosto de 2017 22:28

    Bela reflexão Gustavo!!! Como tem sido difícil ser reminiscente em Campina Grande. E naquele trecho, então... Não tem nem referência. Grande abraço!!

     
  5. walmir chaves on 30 de agosto de 2017 05:55

    Era a parte mais bonita da nossa cidade! Para mim que não presenciei, cronológicamente, essa transformação, por morar no exterior, me irrita quase ver esta nova imagem. Na minha mente sigo vendo a minha linda Campina dos anos 6O...

     
  6. Unknown on 30 de agosto de 2017 09:48

    É a nova "reforma urbana" que acontece em Campina Grande, assim como aconteceu em 1940, varrendo a história arquitetônica da cidade para os escombros da insensibilidade imobiliária. Mas ainda há o que salvar, tão pouco e tão raro para esta cidade, como o Largo das Boninas, Largo da Estação Velha, Estação Nova, a vila do Beco da Pororoca, os armazéns históricos das rua João Suassuna, João Pessoa, Índios Cariris, rua Major Juvino do Ó, casario da Otacílio de Albuquerque e Frei Caneca...

     
  7. Gersoni Lucena on 7 de setembro de 2017 22:56

    Eu nasci no José Pinheiro e conheço bem essa área que vc falou, pude observar pelo google e da última vez que estive em Campina a situação do local, é triste, realmente apagou parte de nosso passado, de nossa memória, é como se tivessem "violentado" nossas memórias, lamentável.

     


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